Violência e censura na Câmara sinalizam ‘rompimento com institucionalidade’ e manobra pró-Bolsonaro, diz cientista político
Para Rafael Cortez, votação da dosimetria expõe convergência entre centro-direita e bolsonarismo e riscos à democracia.
Entrevistado avalia que aprovação do projeto e reação da Polícia Legislativa revelam crise de autoridade no comando da Casa| Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
A sessão na Câmara que aprovou o Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, na madrugada desta quarta-feira (10), foi marcada por agressões a parlamentares e à imprensa e pela interrupção das transmissões oficiais. Para o cientista político Rafael Cortez, trata-se de um “dia triste para a democracia brasileira”. Segundo ele, o episódio representa “um rompimento grave com a institucionalidade e com o decoro parlamentar”. “Democracia é um regime político no qual os conflitos são institucionalizados”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Cortez destacou que o uso de violência contra o deputado Glauber Braga (Psol-RJ), que foi agredido e retirado do plenário à força, e o bloqueio de imagens durante a votação mostram um outro patamar de conflito político. “A violência contra a imprensa, que em tese não é parte do conflito”, e o “bloqueio das transmissões do plenário” não parecem ser “algo que tenha concorrido por um acaso”, disse. Na avaliação dele, o episódio “não se trata de um fato isolado”, mas de uma repetição de ataques à democracia.
Sobre o mérito do projeto, o cientista político avaliou que a proposta tem um caráter “casuísta” e voltado a proteger o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe de Estado. “Não dá nem para imaginar que se trata daqueles momentos em que as instituições representativas resolvem fazer um balanço do regime político”, apontou. “É muito mais uma decisão voltada para o casuísmo”, além de abrir espaço para novos comportamentos contra o regime democrático, completou.
Cortez também questionou a narrativa que tenta fazer uma separação entre o bolsonarismo e a centro-direita. De acordo com ele, a aprovação “nos ajuda a entender se de fato existe essa separação”, já que a convergência entre agendas mostra que “eles são mais parecidos do que supõe a retórica pública”. O movimento, afirmou, traduz uma “opção estratégica dessa maioria de centro-direita em fazer o relaxamento de penas, sob o risco de induzir novos comportamentos no futuro”.
Ao comentar a atuação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o cientista político vê sinais de fragilidade e falta de autoridade para conduzir conflitos internos, o que tem produzido respostas autoritárias. “Parece ser um comportamento de um ator com fraqueza política”, definiu. Ele pontuou que a forma como a pauta foi inserida, sem uma previsão oficial e em caráter repentino, “sugere que tem algum jogo oculto” e revela interesses eleitorais e “decisões de curtíssimo prazo”. “O resultado disso é violência política”, indicou.
Para o pesquisador, o que ocorreu vai além de um tumulto momentâneo e pode gerar riscos duradouros. “A situação de ontem realmente sinaliza que há algo acontecendo nessa presidência de Hugo Motta que não estamos alcançando”, analisou. Cortez acredita que a fragilidade institucional ajuda a entender “os dilemas da democracia brasileira no presente e no futuro breve”.
FONTE: BdF




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