3 em cada 10 estudantes de 13 a 17 estão frequentemente tristes

Três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Proporção semelhante revelou já ter tido vontade de se machucar de propósito.

O levantamento ouviu 118.099 adolescentes de 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país em 2024. Entre os dados, 42,9% disseram se sentir irritados ou nervosos com frequência e 18,5% pensam que “a vida não vale a pena ser vivida”.

Diante desse cenário preocupante, o Bagé Agora conversou com a psicóloga Dilce Helena Alves Aguzzi para entender os impactos desses dados e como enfrentar o problema.

O que pode explicar o fato de três em cada dez adolescentes relatarem tristeza frequente? 

Quando falamos em adolescência e saúde mental, estamos diante de um fenômeno multifatorial. Não é possível apontar uma única causa, uma vez que estão implicados fatores biológicos (como predisposição genética), psíquicos (como conflitos internos e experiências traumáticas) e sociais (como qualidade de vida e vínculos estabelecidos).

Antes de tudo, é importante diferenciar tristeza de frustração, tédio e depressão. A adolescência é um período de intensas transformações, tanto corporais quanto psíquicas, que impactam profundamente a forma como o jovem percebe e se posiciona no mundo.

Quando pensamos na tristeza propriamente dita, podemos considerar jovens que atravessam momentos difíceis sem encontrar apoio, escuta ou compreensão suficientes para elaborar o que estão vivendo.

Além disso, a sociedade contemporânea, fortemente marcada pela tecnologia e pelo consumo, exerce influência significativa. Há um constante direcionamento para o “ter” em detrimento do “ser”. Nesse sentido, o bem-estar duradouro só é possível no campo do ser, enquanto no território do ter ele tende a ser passageiro. A velocidade com que desejos são substituídos no ambiente virtual intensifica essa sensação de vazio e insuficiência.

Outro aspecto relevante é a fragilidade dos vínculos. A superficialidade das relações pode dificultar a construção de espaços de acolhimento, escuta e partilha do sofrimento, tornando o adolescente mais vulnerável.

Por fim, observa-se também uma dificuldade crescente em lidar com a frustração. Muitas vezes, há uma expectativa irreal de uma vida sem conflitos ou insatisfações. No entanto, ocorre o oposto: quanto maior a capacidade de suportar e elaborar frustrações, mais estruturado e integrado tende a ser o mundo interno, favorecendo uma construção mais consistente da vida pessoal e social. 

Quais são os principais sinais de alerta para pais e professores identificarem sofrimento emocional nos jovens? 

Os principais sinais de alerta costumam aparecer por meio de mudanças no comportamento habitual do adolescente.

Entre eles, destacam-se a tendência ao isolamento, irritabilidade frequente, desinteresse por atividades que antes eram prazerosas, alterações no sono e no apetite, além de dificuldades no desempenho escolar.

Também é importante observar uma maior sensibilidade ou rigidez diante de críticas e intervenções dos adultos, o que pode indicar dificuldade em lidar com frustrações e com a própria percepção emocional.

Como interpretar o dado de adolescentes que já pensaram em se machucar? Isso indica um risco imediato?

O fato de adolescentes relatarem que já pensaram em se machucar é um dado sensível e que merece atenção cuidadosa. Nem sempre indica um risco imediato, mas aponta para algum nível de sofrimento emocional que não está sendo suficientemente elaborado ou simbolizado.

Essa manifestação pode estar relacionada a dificuldades em perceber, nomear e organizar internamente as experiências vividas. Em alguns casos, pode indicar questões mais complexas, que exigem escuta clínica e acompanhamento especializado.

É importante destacar que não é possível fazer uma avaliação apenas a partir desse dado isolado. No entanto, ele funciona como um sinal de alerta relevante, que não deve ser minimizado.

Além disso, vivemos em um contexto em que a experiência está cada vez mais mediada pelo digital, o que pode fragilizar a conexão com o corpo e com as vivências concretas. A psique necessita do corpo para elaborar experiências difíceis. Em alguns casos, machucar a si mesmo pode aparecer como uma tentativa de dar forma, no corpo, a algo que não conseguiu ser simbolizado internamente o que reforça ainda mais a necessidade de cuidado e intervenção adequada.

De que forma a escola pode contribuir para a prevenção e o cuidado com a saúde mental dos estudantes?

A escola tem um papel central na promoção da saúde mental. Isso envolve equipes capacitadas para reconhecer sinais de sofrimento, a presença do psicólogo escolar para qualificar a escuta e os encaminhamentos, e a construção de um ambiente de acolhimento e vínculo, especialmente com as famílias. A prevenção acontece, sobretudo, quando o estudante encontra espaço para ser ouvido antes que o sofrimento se intensifique.

Qual o impacto das redes sociais e do ambiente familiar nesse cenário apresentado pela pesquisa?

Redes sociais e família podem ser tanto fatores de proteção quanto de risco. Quando há acolhimento e pertencimento, favorecem o desenvolvimento. Quando predominam cobranças e comparações, podem gerar sensação de insuficiência. Em um período marcado por impulsividade, isso pode levar a comportamentos de risco. Por isso, é essencial o uso consciente das redes e a presença ativa da família na escuta e no cuidado.

Quando e como buscar ajuda profissional para adolescentes que apresentam esses sintomas? 

 A ajuda profissional deve ser buscada sempre que houver mudanças comportamentais associadas a sinais como isolamento, desesperança ou falas autodepreciativas. Esses sinais já merecem atenção. As famílias podem procurar o CAPS i ou profissionais como psicólogos e psiquiatras. A intervenção precoce é fundamental para evitar o agravamento do sofrimento.


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