Lançamento de obra abre ciclo de apresentações em Xangai, Hangzhou, Suzhou e Macau ao longo de abril
“Entendimento é a primeira fase da cooperação”, disse ao Brasil de Fato a professora Yan Qiaorong (de nome brasileiro Silvia), tradutora ao mandarim do livro O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil, de Darcy Ribeiro, lançado pela primeira vez na China nesta quinta-feira (9), na sede do Grupo de Comunicações Internacionais da China (GCIC), em Pequim.
O clássico do pensamento brasileiro foi editado em conjunto pela Blossom Press e o Centro Cultural de Publicações China-América Latina e Caribe do GCIC, em parceria com a Fundação Darcy Ribeiro, do Brasil. O lançamento faz parte das comemorações do Ano Cultural China-Brasil e inaugura um ciclo de apresentações da obra que percorrerá Xangai, Hangzhou, Suzhou e Macau nas próximas semanas.
O presidente da Fundação Darcy Ribeiro, José Ronaldo Alves da Cunha, discursou durante o lançamento, que para ele representa o cumprimento de um dos objetivos centrais do intelectual.
“Tenho certeza que Darcy estaria exultante. Me sinto cumprindo uma de suas metas, realizando esse sonho de trazer ‘O Povo Brasileiro’ para a China, exatamente neste momento” disse o presidente da fundação, também em entrevista ao BdF.
Para ele, a obra é “o melhor presente que o Brasil poderia dar para a China”, por oferecer ao leitor chinês tanto as realizações quanto os grandes desafios do país, assim como a aproximação “mais intensa, mais garantida e mais perene” que pode haver entre dois povos.
A antropóloga Gisele Jacon de Araújo Moreira qualificou o livro como “a melhor versão de quem somos nós, o povo brasileiro”, além de “a forma de apresentar o Brasil para os chineses, exatamente neste momento de maior aproximação” entre os dois países.
Hoje vice-diretora da Fundação Darcy Ribeiro, ela teve um papel fundamental na obra. Jacon foi assessora do intelectual brasileiro, quem a agradeceu especialmente no próprio livro: “Este livro é obra nossa”.
Segundo ela, “o que o Darcy vai construir, em termos de explicação e interpretação do Brasil, resulta numa utopia Brasil, aquilo que nós queremos ser, aquilo que nós queremos construir para o futuro”.
A obra representa a versão “mais generosa, mais solidária, mais justa” do povo brasileiro, e é “o que podemos compartilhar de melhor com a China”.
A edição é a primeira tradução do livro ao mandarim desde sua publicação original pela Companhia das Letras, no Brasil, em 1995.
O desafio de traduzir Darcy Ribeiro
A professora Yan Qiaorong, da Universidade de Comunicação da China, especialista em estudos brasileiros e tradutora com mais de 20 anos de experiência, diz que um dos principais desafios foi a tradução do próprio título.
Yan explicou que optou por “巴西人” (Bāxīrén, “brasileiros”) em vez de “巴西人民” (Bāxī rénmín, “povo brasileiro”), porque os dois termos podem carregar sentidos diferentes para um leitor chinês.
O termo 人民 (rénmín) tem, no contexto político da República Popular da China, uma conotação específica: designa o sujeito coletivo constituído, com definição concreta em termos políticos, diferente de “cidadão” ou simplesmente “pessoa”. 巴西人 (Bāxīrén), por sua vez, remete a uma identidade nacional mais descritiva, ao sentido de “quem é brasileiro”, próxima do 人 (rén) que a tradutora identifica no próprio argumento de Darcy: a ideia de “uma nova gente, um novo ser humano”.
“O Darcy está falando de um povo-nação, não de um grupo político. Trata-se de uma jornada de formação desse tipo de pessoas, essa comunidade, essa nação”, explicou. A trajetória que Ribeiro descreve, dos primeiros contatos coloniais até os brasileiros de hoje, é a de uma identidade ainda em processo. Daí a tradutora concluir que 巴西人 é “mais adequado” para o chinês.
Ela diz que essa discussão “só se baseia em uma leitura e entendimento aprofundado sobre esse livro, sobre o pensamento do próprio autor e a minha sensação pessoal sobre o Brasil”.
A decisão envolveu meses de consulta a acadêmicos brasileiros e uma leitura aprofundada da obra. Para Yan, a escolha reflete seu próprio entendimento da ideia central do intelectual brasileiro: a de que os brasileiros são uma entidade em formação, desde a invasão colonial até a identidade nacional contemporânea. “Parece que eu sempre estava com o autor”, disse a tradutora sobre o processo de trabalho.
Outros conceitos exigiram atenção equivalente. A palavra “cunhadismo”, central no sistema teórico de Darcy, foi traduzida como “联姻吸纳制” (literalmente “Sistema de Absorção Matrimonial”), após consulta a especialistas brasileiros. O conceito de “ninguendade”, que captura a suspensão identitária dos mestiços na história colonial, exigiu notas de tradução detalhadas.
Yan, que fez mestrado em Letras na UFRGS de 2005 a 2008, leu seis obras da historiografia brasileira para fazer este trabalho, incluindo “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, entre outros clássicos, para enraizar a tradução num entendimento mais amplo da cultura e da história do país.
Para o presidente da Fundação, a dificuldade de traduzir Darcy é inseparável da originalidade de seu pensamento. “Darcy criou seu próprio esquema conceitual. Não tem referências em outros autores para explicar seus próprios conceitos. Ele inventa palavras, tipo ‘ninguendade’, ‘cunhadismo’, e você precisa entendê-los na tradução para adotar similaridades convenientes entre as duas culturas”, afirmou José Alves da Cunha.
A professora Gisele destacou a importância da tradução para além do evento de lançamento: Yan Qiaorong também acompanhará a delegação brasileira em todas as cidades do circuito de apresentações, auxiliando na mediação das falas e expondo ao público chinês os debates levantados na obra de Darcy Ribeiro.
FONTE: Brasil de Fato




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